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Qual o objetivo de olhar para si mesmo?

Segue abaixo um email que recebemos recentemente de uma pessoa no Brasil e decidimos colocá-lo aqui acompanhado da nossa resposta, pois esta conversa é importante:

Pelo que entendi o "método" (desculpe, na falta de outro termo) consiste em eliminar "o contexto do medo da vida", podendo então a capacidade natural se revelar espontaneamente. E com o exercício da concentração haveria esta eliminação. John fala em focar na respiração contando até 10, alguns minutos por dia. Isto já seria o suficiente? Obrigado pelo trabalho de desmistificação, de descomplicação, de esclarecimento. R.M. (Brasil)

Caro R.M.,

Nossa atenção em geral é distraída o tempo todo, sempre atraída por objetos "lá fora", tais como sons, imagens, pensamentos, sentimentos, etc. O ato de virar o foco da atenção 180 graus e forçá-lo a tocar a si mesmo (o ponto de onde a atenção se origina, ou 'eu') é um ato que requer um esforço extremado. É um ato não natural. O natural é a atenção voltada "para fora", prestando atenção a possíveis perigos e ameaças. Este é o uso natural da atenção. Mas só é necessário fazer este ato uma vez.

Há muitos estudos que demonstram que o trauma do nascimento (mesmo em partos mais "naturais"), causa sérios danos à psicologia. Ocorre um retraimento, uma contração na mente individual, uma mente que ainda não tem nenhum meio de compreender o que está acontecendo. Isto cria um contexto, um ambiente de medo e desconfiança, que é totalmente inconsciente. É sobre esta fundação de medo que a personalidade vai se formar. E a atenção é o instrumento usado pela mente para proteger a si mesma das ameaças da vida que é vista como perigosa, cheia de ameaças por todo lado.

Ao voltar a atenção sobre si mesma, com um esforço imenso, ocorre uma espécie de choque, pois aquilo que a atenção tentava proteger a todo custo não precisa de proteção. A fundação invisível de medo e desconfiança se desfaz neste instante.

Embora o contexto de medo da vida desapareça instantaneamente, os mecanismos psicológicos que se formaram e se alimentaram dele durante toda a nossa vida, continuam. Eles começam a ficar meio doidos, porque não têm mais a fonte de energia que os sustentava e confirmava a sua existência. É por isso que durante o período que chamamos de "recuperação" ou "convalescença" que se segue ao momento em que este olhar ocorre com sucesso, as pessoas parecem piorar. Tudo que havia sido reprimido, os comportamentos neuróticos que pareciam estar sob controle, os comportamentos auto-destrutivos que pareciam ter desaparecido muitas vezes reaparecem com toda fúria.

É neste período que o exercício da atenção concentrada pode ser de grande utilidade. Esta fase vai passar eventualmente, mas pode tornar a vida do dia a dia muito difícil. A melhor coisa a fazer é praticar este exercício para fortalecer a sua capacidade de decidir o que precisa da sua atenção e o que não precisa. Por exemplo, ideias negativas a respeito de si mesmo, dúvidas sobre a eficácia deste método, etc., são estratégias da doença tentando sobreviver a todo custo, tentando manter o controle. No sentido figurado, é claro, pois estas entidades não têm vontade; são algoritmos, robôs. Quando você perceber que um estado emocional difícil apareceu, ou um pensamento negativo tomou conta da sua mente, simplesmente recuse-se a prestar atenção a ele e, sem julgamento, simplesmente transfira o foco da sua atenção para a sensação da respiração, do ar que entra e sai do seu nariz. A atenção só vai ficar lá alguns segundos e, de repente, você vai perceber que está prestando atenção aos pensamentos de novo.

Quando perceber isso, tente de novo. É aconselhável praticar este exercício com emoções e situação neutras ou positivas, para fortalecer a sua capacidade de focalizar a sua atenção deliberadamente. Se tentar fazer isso só quando a experiência for negativa, vai ser muito mais difícil.

Um abraço.

Carla Sherman

Instruções para o exercício de controle da atenção em português.